quarta-feira, 2 de abril de 2008

O Romantismo e o Eu

Texto I:

F.G.C.

Tristão em mim
Não, não exerço a teoria. Não quero. O passado está aqui, mais presente do que o nunca, mais pensante que o louco, que a espera do outro lado, sem ler seu coração, entender sua mente. Não se enriquece com aqueles cabelos de ouro, mareados de ondas, maiores agora, mais lindos assim. Aquele olho, brilhoso, marcado ao som de uma música interminável, tocando aos meus ouvidos no dia de hoje, a todo momento. Eu fazia assim.
Voltando ao passado, eu sim, entendia a melodia, dos fogos no céu, de um momento que eu sabia, não teria mais fim. Em suas mãos trêmulas, inocentes, circulava o sangue da descoberta da paixão. Segurei-a firme, mas também estremeci. Começava ali, a história de dois primeiros amores, já que ambos eram puros ao amar, inexperientes ao errar.
Talvez não soubessem, que depois de tanta coisa vivida, em toda imensidão do pouco tempo que durou, o mar fosse os separar. Tudo interminável, cada momento maravilhoso, como uma aula, sem professor para aprender. Não, não queria que fosse assim e não se sabe porque o fez, mas foi feito. Triste término para aquele amor que emperfeitava-se a cada momento. Tudo parecia sem fim. Mas ele o veio, sem prévio aviso, não encontrou a saída. Fugiu. Tentou facilitar, mas fez parir a dificuldade.
Nasceu Tristão e agora voltemos para o presente. Tudo é extremamente diferente. O louco lá e eu cá. Não faço parte daquilo que pensam que sou. Finjo acreditar que o futuro simplesmente resolverá o velho recém-nascido. Ela lá, tentando, sem pensar, me esperar.
Tentemos solucionar. Trazer o passado pra cá, ou ver como se todo aquele infinito rio de perfeição desenbocasse em minha mente, sozinha. Não sai daqui. Por favor, não sai daqui.

Fernando Gregório Catto
21.11.2006

Texto II:

Johanna em cena do filme de Tim Burton - Sweeney Todd.

Meu Bébézinho Lindo:
Não imaginas a graça que te achei hoje à janela da casa de tua irmã! Ainda bem que estavas alegre e que mostraste prazer em me ver.
Tenho estado muito triste, e além disso muito cansado – triste não só por te não poder ver, como também pelas complicações que outras pessoas têm interposto no nosso caminho. Chego a crer que a influência constante, insistente, hábil dessas pessoas; não ralhando contido, não se opondo de modo evidente, mas trabalhando lentamente sobre o teu espírito, venha a levar-te finalmente a não gostar de mim. Sinto-me já diferente; já não és a mesma que eras no escritório. Não digo que tu própria tenhas dado por isso; mas dei eu, ou pelo menos, julguei dar por isso. Oxalá me tenha enganado...
Olha, filhinha: não vejo nada claro no futuro. Quero dizer: não vejo o que vai haver, ou o que vai ser de nós, dado, de mais a mais, o teu feitio de cederes a todas as influências de família, e de em tudo seres de uma opinião contrária a minha. No escritório eras mais dócil, mais meiga, mais amorável.
Enfim...
Amanhã passo à mesma hora no Lardo de Camões. Poderás tu aparecer à janela?
Sempre e muito teu

Fernando Pessoa
27.04.1920

Como os textos se aproximam do Romantismo?
Em síntese, ambos os textos demonstram o afastamento da mulher e do homem e a mágoa sentida por este, quando impedido de viver um amor que seria ideal em suas concepções. A exaltação dos sentimentos pessoais é evidente em ambos (“Tenho estado muito triste”), além da exaltação do ser amado ("aqueles cabelos de ouro, mareados de ondas, maiores agora, mais lindos assim"). O estado da alma do eu lírico é agonizante, frustrante por não poder estar em contato direto com seu amor que o espera longe.
O que pode distanciar ambos do movimento literário acontecido no Brasil no século XIX é que tanto no conto, quanto na carta, falta um final feliz. Aliás, falta um final. O final ainda está por vir em ambas obras. O que é inegável é que na mente de todo leitor a esperança por um "final feliz" é gritante.

Um comentário:

Geruza Zelnys de Almeida disse...

muitas e boas recordações desse seu texto!
parabéns!
G.